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ESPECIAL
JAIPUR
JAIPUR: A ESPERANÇA PARA AMPUTADOS RURAIS
O Centro Ortopédico da Cruz Vermelha de Moçambique, em Manjakaze, província de Gaza, passou a ser considerado uma solução para muitos problemas que pessoas portadoras de deficiência enfrentam no seu dia a dia. É que, desde a sua criação, aquele estabelecimento sempre se dedicou à produção de materiais de compensação, particularmente para pessoas com parcial ou dupla amputação dos membros inferiores, criando desta forma condições para que elas voltem a caminhar sem necessidade de moletas e se dediquem a actividades que garantam a sua sustentabilidade.
A par do fornecimento de próteses, o Centro Ortopédico da CVM, também conhecido por JAIPUR, inclui nas sua responsabilidade social o fornecimento de bens para o início da actividade de geração de rendimentos, uma actividade que está dando bons resultados em muitas famílias. Aliás, numa das nossas anteriores edições publicamos uma reportagem sobre um beneficiário do nosso Centro que, depois de muito tempo sem exercer em pleno a sua actividade, por causa da deficiência, recebeu próteses e voltou à labuta, tendo se transformado num pequeno empresário respeitado na sua zona.
Hoje trazemos outro exemplo de como o Centro Ortopédico transforma a vida das pessoas. Trata-se do caso de Francisco António Mondlane, que sofreu uma dupla amputação, vítima de mina, quando se encontrava a cumprir o Serviço Militar Obrigatório.
Ele tem duas esposas e filhos menores.. Sustenta a família graças ao trabalho do corte e venda de estacas, lenha e produção de carvão. É um trabalho que fazia com muitas dificuldades, devido à minha condição física. Depois que obtive próteses a minha vida mudou drasticamente para melhor. Já corto estacas e lenha e produzo carvão para a venda, disse Mondlane Visivelmente emocionado.
No dia em que entrevistamos Francisco Mondlane, as suas próteses já reclamavam uma reparação, o que, segundo soubemos na altura, iria acontecer na semana seguinte. Com as próteses reparada, o nosso entrevistado já poderá desenvolver a sua actividade sem grandes limitações e, consequentemente, enfrentar os desafios da vida com certa ligeireza. É que, segundo nos disse, quando ele trabalha em pleno, não lhe falta pão para alimentar a família.
Para além de ter beneficiado de próteses,... Recebeu da CVM material de construção para a reabilitação da sua casa. Aliás, a última informação dada pelo director do Centro Ortopédico, Filipe Ussiva indicava que, no lugar de reabilitar a casa de Mondlane, já em precárias condições, ergueu outra de madeira e zinco.

Lindiwe Chembene, é outra beneficiária dos serviços do Centro Ortopédico da CVM. Ela saiu de Matutuine, província de Maputo, para JAIPUR com o propósito de solicitar nova prótese, uma vez que a que vinha usando já dera o que tinha para dar, tendo passado a constituir um transtorno para a sua locomoção. Quando eu comecei a sentir-me mal com a prótese desloquei-me ao Hospital Central de Maputo, na esperança de ver resolvido o meu problema. Só que, infelizmente, lá me informaram que não dispunham de material para o efeito, tendo me aconselhado a contactar a Cruz Vermelha de Moçambique. Isso foi em 1993, pouco depois da assinatura dos acordos que puseram fim à guerra em Moçambique. Quando conversamos com Lindiwe, ela esperava regressar à sua casa dentro de uma semana.
Lindiwe foi obrigada a interromper os estudos por falta de dinheiro. Assim que regressar, ela espera apoiar a mãe nos afazeres diários, na esperança de um dia voltar aos bancos da escola para concluir a 12ª classe.
A nossa interlocutora perdeu a perna quando, na companhia da mãe e outros familiares quando se deslocavam à vizinha Suazilândia, à procura de refúgio, tendo accionado uma mina.
Eu era quinta pessoa e, por sinal, a mais nova do grupo. Quando pisei a mina, ela explodiu e eu fui a única pessoa atingida, disse Lindiwe
fazendo um pequeno esforço para remexer a sua memória e trazer à superfície recordações daquele triste dia.

Outro paciente com quem conversamos chama-se Albino Gudjamo. Tem 72 anos de idade e é natural de Muthambe, distrito de Chibuto.
Gudjamo soube da existência do Centro Ortopédico da Cruz Vermelha, em Manjakaze, através de um amigo, também portador de deficiência e que já beneficiou de muito apoio de Jaipur.
O nosso entrevistado deslocou-se ao Centro Ortopédico com a objectivo de reabilitar a sua prótese, que já não o ajudava praticamente em nada. Aliás, segundo disse, esta prótese já estava a constituir um outro problema para mim, no lugar de me ajudar a superar deficiência que tenho. Quando caminho sinto muitas dores , que, às vezes, preferia andar de moletas do que de prótese, disse, com sinal de amargura no seu semblante. Segundo confessou, ele anda muito triste porque com as moletas ele já não pode fazer o trabalho de lavoura com a sua charrua.
Quando soube da existência de Jaipur, ele deslocou-se à Comissão Distrital da CVM, em Chibuto, para mais informações sobre como proceder para resolver o seu problema.
Deram-me uma declaração e informaram onde fica localizado o Centro e cá vim. Estou muito satisfeito porque já me garantiram que não vou sair daqui sem uma nova prótese. Se isso acontecer, voltarei à minha actividade para sustentar a minha família.
Albino Gudjamo perdeu a perna quando tinha apenas 15 anos de idade. Tudo aconteceu quando, na companhia de amigos da infância, resolveu ir dar nadar num rio, próximo da casa dos pais, tendo sido, segundo suas palavras, surpreendido por um peixe muito grande. Tentei lutar, mas o peixe foi mais forte e cortou-me a perna.
Contrariamente àquilo que muitos podem pensar, o Centro Ortopédico Jaipur não dedica apenas à produção e fornecimento de próteses. Atende também pessoas com fracturas, paralisia dos membros, entre outras doenças.
Nelson Ricardo, Técnico de Medicina e Reabilitação, no Centro Ortopédico Jaipur, disse que pessoas com paralisia, por exemplo, fazem tratamento ambulatório, o faz com que muita gente não se aperceba da sua presença no centro.
Falando do trabalho que realiza, o nosso interlocutor disse se sentir satisfeito, porque os pacientes que beneficiam dos nosso serviços também se mostram muito encantados quando saem daqui. É gratificante saber que realizei um trabalho que vai mudar, positivamente a vida de alguém.
Ricardo disse que parte do sucesso da actividade do Centro deve-se à boa colaboração dos pacientes. Eles facilitam muito o nosso trabalho.
Outro dado apontado por Nelson Ricardo é de que o Centro nunca fica sem nenhum paciente para atender. Os pacientes entram e saem, levando, em média, entre três e quatro dias de preparação, no final dos quais o paciente regressa à proveniência já com prótese.
Segundo soubemos no local, alguns pacientes usam os seus próprios meios para se deslocarem ao Centro e vice-versa, outros beneficiam do transporte da Cruz Vermelha, quando o Centro tem actividades no terreno.
Para o caso dos primeiros, o Centro reembolsa o dinheiro gasto na viagem, quando as circunstâncias assim o exigirem.
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HISTORIAL
O Centro Ortopédico Jaipur foi criado em 1999, com o financiamento da Jaipur Limb Campaign, uma ONG britânica que se dedica à promoção da tecnologia apropriada para fabrico de próteses para zonas rurais.
De 2000 até 2006, o Centro atendeu cerca de 1553 pessoas portadoras de deficiência.
Único na província de Gaza, o Centro Ortopédico Jaipur tem como missão a reabilitação física de pessoas portadoras de deficiência, (vítimas de minas ,acidentes de viação e de trabalho), doenças, entre outras.
Neste centro, para além de receberem um treinamento e próteses, os beneficiários têm uma integração social e autónoma e vêem reforçadas as suas capacidades para superar algumas dificuldades e melhorar as suas condições de vida, através de micro-projectos.
Todos os serviços prestados pelo centro aos beneficiários, nomeadamente alojamento, alimentação, aparelhos de compensação de marcha e transporte de e para casa são inteiramente gratuitos.
Com o financiamento da Jaipur Limb Campaign, o Centro introduziu, a título experimental, o projecto económico e social para apoio a pessoas portadoras de deficiência, que consiste na disponibilização de juntas de bois, charruas e outros instrumentos de produção.
Neste momento, o Centro tem o apoio da Cruz Vermelha Alemã para as despesas de funcionamento, aquisição do equipamento ortopédico e outros materiais. O treinamento do técnicos é garantido pelo CICV/SFD.
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SUSTENTABILIDADE
Ciente de que o apoio externo não é eterno, a Centro pretende construir uma “casa de hóspedes” para a sustentabilidade do Centro. Para o efeito, o Centro recebeu um financiamento da Desability and Development Partners no valor de 14 mil dólares, valor não suficiente para a ambiciosa obra. Assim, foi feita uma negociação com um construtor local, de nome Timóteo Fuel, que predispôs-se a construir com o valor em falta para que este sonho se torne realidade, tendo sugerido que o empreendimento seja erguido no distrito de Manjakaze, que se debate com problemas de alojamento.
No final das conversações, que culminaram com o acordo entre as duas partes, o Sr. Fuel foi convidado a inscrever-se como membro da Cruz Vermelha de Moçambique, tendo lhe sido atribuído a categoria Ouro.
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